quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Nas Asas da Poesia - Eu não sei o que procuro

Eu não sei o que procuro
Nem sei se o hei-de encontrar
Abro os olhos mas, no escuro,
Nada posso vislumbrar.

Onde estás? – pergunto eu
Mas é silêncio que ouço
Pouco do que tenho é meu
Pouco sou daquilo que posso.

Esta escuridão me cega
E o silêncio ensurdece
Nesta vida, sigo à espera
De algo que não aparece.

Creio e espero que um dia
Algo irei encontrar
Mas de saber gostaria
Quanto mais irei esperar.

Marco Gago

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Pó na Fita - O Grande Ditador (1940)

Voltamos de férias! E já que estamos em altura de eleições, que tal uma lição de história?

Com certeza conhecem o Charlot! Sim? Não?
Desta vez, as desventuras deste simpático e ingénuo senhor decorrem entre duas grandes guerras. Numa sucessão de pitorescas rábulas, a personagem passa de soldado raso, a barbeiro desfavorecido num gueto judeu, a combatente pela liberdade nas horas vagas!
Por entre estes episódios, desenham-se outros, igualmente hilariantes, mais mordazes, sobre o ego de um certo ditador (caricatura perfeita de outro certo infame tirano muito muito conhecido). Estas duas figuras jogam em pólos opostos da sociedade e da personalidade, personificando virtudes (o barbeiro) e defeitos (o ditador) comuns na humanidade.

O Grande Ditador é um filme com uma clarividência atroz, uma vez que previu todo o desenrolar da 2ª Guerra Mundial, no dealbar da mesma. Uma película que expôs os crimes de Hitler e comparsas, mesmo antes de estes se tornarem mais públicos! Atentai contudo à performance de Charlie Chaplin, quer como ator, macaqueando a figura do fulgurante ditador com fortes agulhadas ao seu ego, quer como contador de uma história muito bem desenvolvida e montada.

O final, o único momento verdadeiramente sério do filme, é de levar às lágrimas, de te arrepiares, de levares como credo político e de dares aos teus filhos (isto se não fores um ditador claro!)

P.S.S. Já que estamos numa de discursos ao coração, aqui fica o FMI de José Mário Branco, para acompanhar

Rafael Nascimento

domingo, 18 de outubro de 2015

Muthure's Place - Poem to Self

I look into the mirror with you
Every morning.
I see the image;
Hard hair,
Face all nose and forehead,
Full, bushy eyebrows,
Only one dimpled cheek.
Tongue, pink and lovely.
You fold and curve and run it along
The inside of your mouth when in deep thought.
Firm imprint of your molars on its sides
From all the years of biting down on it in deep sleep.
You curse it sometimes
For being an instrument
In the orchestra of hurtful and selfish words,
Tumbling out and rolling over those lips.
Lips that turn upward ever-so-slightly only sometimes,
But more often than that
Open to reveal
The reason you refused to go to school one day
In nursery school if not ‘fixed’ immediately-
Inexplicable small dents on the four front lower teeth.
I take it in everyday,
I can draw it all blind-folded.

I know your body.
Birth mark below left knee,
Beauty spot on right foot,
Stretch-marked bottom,
Masculine hands,
Toned legs,
Short, fat toes,
Slight curve of belly,
Breasts larger than you desire.
And the scars…
Shadow of a few stitches on your right palm,
Tick-shaped scratch on your left shin,
And more.
As if your childhood memories,
Afraid of being forgotten,
Etched themselves in your flesh.
And it’s difficult to,
When they’ve left a playful map on your skin.
Skin that’s smooth for the most part,
Not chocolate but not quite toffee either.
Something in between perhaps.
I’m slowly learning to appreciate it all.

I know your dreams.
Lofty and impractical,
Delicately rooted in your every thought.
I want to let you know
That it’s okay to dream.
It’s okay to be ambitious.
And that sometimes
You should speak them aloud
Because not everyone will ridicule you,
And that you’ll be braver for it.

I’ve touched your heart.
I alone know its temperatures.
Its intentions.
All its different colours.
I’ve watched you try walk away from it,
And in turn felt it go cold,
The only sign
That lets me know
We’re expecting some sort of blow soon.
Sometimes it opens up wide though
And I’m left in awe.
I watch it smile occasionally,
The sight of which has never failed to move me
All these years later.
Once in a while I feel a deep tremble,
The definition of a hearty laugh.
And it’s then you really let go.
I’ve felt it love.
I’ve seen it shatter.
I held it up for you when you couldn’t bring yourself to.
I’m here to tell you all this will happen again.
I want you to understand.
That you will love again.
And you will break again.
And that it’s okay.

I must say,
I don’t quite like
This strange tenant in your cartilage and tissue,
Making your joints creak so loud sometimes
It jolts me.
Crook of elbow;
Fit to hold a child,
Mind and body not ready to believe
You’ll ever hold one of your own.
Bend of knee;
Moving with every step you take,
Walking towards destruction at times,
Running from the world at others,
Once in a while just managing crawling to safety,
But always moving all the same.
Crack of knuckles;
Perpetually trying to find... ways,
Words to put down
To try keep track of marathon-running thoughts.
Spinning ideas.
And never quite catching up.

Many long, wakeful and restless nights have past,
And I’ve been your only company.
The only one you told your nightmares.
I’m the interpreter of them all,
And sometimes I may have been wrong.
I apologise.
I do my best though, to let them not haunt you.
I try to make your dreams nice.
Make them wonderful,
Just to have you wake up with a smile so subtle,
Even you don’t know about it.
But you feel it.
That distinct tiny little warm glow you can’t explain,
Making you want to listen to that specific playlist.
I know most of the songs off the top of my head..

Let’s just say
I’ve studied you.
That I know you.
And I realise that I’ll still never know enough.
This isn’t to inform you of anything really,
Because you know just as much as I do.
It’s to remind you of things you forget.
It’s to try to calm your sometimes too impatient soul,
To make you take time to look and not just see.
It’s to touch you in places you’ve neglected in a while.
It’s to kiss you.
It’s to converse with you,
We hadn’t spoken in a while.
It’s to try make you understand,
That I quite simply... love you.
Sometimes without good reason,
But I love you all the same.
And to let you know that I’ll be watching you...

Joy Muthure


I am female and in my mid-20s. Sometimes I dabble in writing, from prose to pieces penned to be spoken out loud. A few of my other interests include: [reading] literature, music, laughing, listening, loving and living (I am a big fan of life in general). I am intrigued by animals -ourselves included- thus my background in Zoology. Some of my “lofty” dreams consist of trying to bring ecosystem health to a balance, through improving the health of humans, animals and the environment they share. To this end I studied One Health (do look it up, you [probably] won’t be disappointed that you did!). I am an East African local with what I hope to be the mentality of a global citizen. I’m all about connectivity, and tend not to see things in isolation so feel free to connect with me!

Joy Muthure


Miss Joy Muthure will share with us her writings and thoughts regularly on Muthure’s Place, every month, here at Opina. Hope you enJoy!


quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Legislativas 2015 - Fraude eleitoral?

Depois de trazer a falácia da falta de escolha à conversa durante a campanha eleitoral, hoje, semana e meia após as eleições, proponho fazer, em jeito de balanço, um apanhado de coisas interessantes que as eleições legislativas de 2015 nos revelaram. Mas antes, vejamos os números destas eleições segundo o portal Legislativas 2015:

Abstenção – 4 273 748 (79%) votos = ? assentos parlamentares
PÀF – 1 993 921 (36,86%) votos = 102 assentos parlamentares
PS – 1 747 685 (32,31%) votos = 86 assentos parlamentares
BE – 550 892 (10,19%) votos = 19 assentos parlamentares
CDU – 445 980 (8,25%) votos = 17 assentos parlamentares
Votos Brancos – 112 851 (2,09%) votos = 0 assentos parlamentares
Votos Nulos – 89 554 (1,66%) = 0 assentos parlamentares
PPD/PSD – 81 054 (1,5%) votos = 5 assentos parlamentares
PAN – 75 140 (1,39%) votos = 1 assento parlamentar
PDR – 61632 (1,14%) votos = 0 assentos parlamentares
PCTP/MRPP – 59 955 (1,11%) votos = 0 assentos parlamentares
Livre/Tempo de Avançar – 39 340 (0,73%) votos = 0 assentos parlamentares
PNR – 27 269 (0,5%) votos = 0 assentos parlamentares
MPT – 22 596 (0,42%) votos = 0 assentos parlamentares
NC – 21 439 (0,4%) votos = 0 assentos parlamentares
AGIR – 20 749 (0,38%) = 0 assentos parlamentares
PPM – 14 897 (0,28%) = 0 assentos parlamentares
JPP – 14 285 (0,26%) = 0 assentos parlamentares
PURP – 13979 (0,26) = 0 assentos parlamentares
CDS/PP – 7 536 (0,14%) = 0 assentos parlamentares
AA – 3 654 (0,07%) = 0 assentos parlamentares
PPV/CDC – 2 659 (0,05%) = 0 assentos parlamentares
PTP – 1748 (0,03%) votos = 0 assentos parlamenteares

É de salientar o resultado da coligação Portugal à Frente (PSD – CDS para os mais distraídos que votaram nesse partido novo) em 2º lugar, o PS, em 3º, o Bloco de Esquerda, que ultrapassou a CDU em votos e deputados eleitos e que conseguiu assim afirmar-se como a 4ª maior força política do país, a CDU (PCP – PEV) em 5º e o estreante PAN que elegeu 1 deputado e que ascende à 9ª posição.

A maior fatia do bolo vai, no entanto, para a Abstenção, a maior força política do país que, num momento de glória, conseguiu um resultado histórico, o mais elevado desde 1974, altura em que se decidiu, parece, inventar boletins de voto com mais que uma caixinha para se pôr a cruz.

Não obstante, os resultados eleitorais têm sido contestados pelos partidos democráticos que se candidataram às eleições (e pelos não democráticos também), contra o que dizem ser a manipulação de resultados eleitorais e o atentado contra o direito de livre voto por parte dos líderes abstencionistas que, mostram os números, conseguiram mais de 2 000 000 de votos de diferença para o 2º partido mais votado.

Ai os números, os números…

“ Os números destas eleições mostram uma de duas realidades alarmantes em Portugal:” – afirmou ao Opina um militante de um partido, nada radical, da parte central do centro moderado. “ ou a indústria exportadora já começou a exportar massivamente crianças e jovens com menos de 18 anos, pois um país com cerca de 10 400 000 habitantes e com mais de 9 600 000 eleitores sofreu uma grande rapinagem de garotos e, se assim for, é quase certo que uma boa parte dos coleguinhas de infantário e/ou de escola dos nossos filhos são anões disfarçados de putos ou a Abstenção manipulou os resultados para ganhar as eleições.”

Em qualquer dos casos, trata-se de um cenário preocupante. A ser verdade que a Abstenção inflacionou os números do seu eleitorado levanta-se a questão de, como é que num país democrático uma força política, mesmo com a expressão da Abstenção e com os altos cargos ocupados pelos seus dirigentes, consegue elaborar e por em prática, uma estratégia de condicionamento do livre exercício de voto, de modo a ganhar as eleições por clara maioria em todos os círculos eleitorais, em Portugal e no estrangeiro, e que tipo de pessoas estão por trás de tão perturbadoras noções de democracia.

Fig. 1: Peter Dinklage, Tyrion na série Game of Thrones
Durante a semana transacta chegaram à comunicação social relatos de irregularidades, que podem estar na base das críticas de impedimento do voto ou da sua validação, apontadas ao governo de maioria Abstencionista como modo de garantir a reeleição nas presentes eleições.    

Em Santa Iria, Loures, um número indeterminado de cidadãos foram impedidos de votar por, alegadamente, já terem votado, algo que os próprios contestam. No círculo fora da Europa, onde a Abstenção venceu com quase 80%, várias centenas de votos não chegaram a Portugal a tempo de serem contabilizados por insuficiências no endereço (leia-se não tinham escrito “Portugal”). O “Nós, Cidadãos!” refere em especial o caso de Macau, mas parece não ser caso único, com a SIC a expor o caso de Hamburgo, onde nem a consulesa conseguiu ver o seu voto validado, apesar de ter votado no primeiro dia de votações antecipadas. Haia, Díli e Caracas também sofreram de problemas de transporte e não tiveram os seus votos contabilizados.

Em Caxias, Oeiras, uma assembleia de voto que, nas eleições de 2011 contou com 12 516 eleitores, iniciou o dia munida de 5 mesas de voto o que gerou, filas de espera de aproximadamente 1 hora, que por sua vez, resultaram na desmobilização avultada de votantes. A esta situação junta-se um problema de natureza matemática, a ver: se se considerar que cada eleitor demora 1 minuto no processo de exercer o seu voto, entre ver a sua identificação confirmada, fazer a cruzinha atrás do biombo e colocar o boletim, dobrado, na urna (e isto é uma estimativa boazinha), a assembleia de voto de Caxias, com as suas 5 mesas e a funcionar 11 horas (8:00 – 19:00) teria capacidade de dar vazão a 3300 eleitores, pouco mais de ¼ dos eleitores registados.

A estes episódios juntam-se ainda relatos de cidadãos impedidos de votar no estrangeiro apesar de apresentarem consigo a documentação para o efeito segundo os critérios da Comissão Nacional de Eleições e cidadãos impedidos de votar, em Portugal, por estarem dados como mortos.

Em suma, lapsos burocráticos/organizacionais, de transporte, tempo excessivo de espera (contabilizado em horas), matemática, falência ucrónica dos órgãos vitais e, possivelmente, fraude, estão entre os motivos que levam cidadãos e partidos políticos a acusar os líderes Abstencionistas de inflacionarem os seus resultados eleitorais e de porem em causa o resultado das legislativas.

Em sua defesa, José Ninguém, líder Abstencionista, remete qualquer irregularidade para a Comissão Nacional de Eleições, esse órgão independente responsável pela igualdade de tratamento e oportunidade dos cidadãos no âmbito dos actos eleitorais, no qual, por mero acaso, 5 dos 9 membros constituintes fazem parte ou do governo Abstencionista ou dos grupos parlamentares dos Abstémicos e dos Sancionistas que se coligam no governo da Abstenção.

Também alguns comentadores afectos ao sector ideológico dos Abstencionistas vieram defender que, ainda que possa ter havido falcatruas nas eleições, estas não foram, de certeza, em número significativo para pôr em causa a larga vantagem da Abstenção sobre as restantes forças políticas e que, qualquer inconformidade se deve, certamente, a erros técnicos esporádicos que parece que acontecem.

Assim, assuntos possivelmente de foro criminal e com peso para influenciar o rumo do país devem ficar remetidos a notas de rodapé na comunicação social e a troca de galhardetes por parte de assessores dos nossos principais intervenientes políticos.

Por cá, ficamos à espera que Abstencionistas, Sociais-Democratas e Socialistas se entendam, ou não, quanto à maneira mais estável de dar azo à continuidade.

Esperam-se novos episódios lá para 201…


Nuno Soares

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Nas Asas da Poesia - Soneto do surreal

Entrelaço na terra
Sou cheiro lima alecrim
Várias pedras da serra
Caminho de raíz crispim

Num carrascal que chama
Pela flor primaveril
Na rocha entre lama
Pulga em cravo de abril

Soneto num concerto
Musgo emparedado
Sempre terreno canto

Sufoco empedrado
Com joaninha desperto
D´um toco repousado

Paulo D. de Sousa

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Crónica Social - Na rota dos festivais de Verão

Fora de Tempo. Ainda sobre Festivais de Verão…

Embora o Outono se instale, só agora gozo um período de férias. Férias que, cada vez mais, significam um tempo de distância em relação aos ritmos, aos lugares e às pessoas que preenchem o quotidiano de rotinas marcadas pelo trabalho.

Há já vários anos que dou um destino diferente a este tempo. Diferente porque o orçamento disponível não aconselha viagens de lazer. Mas diferente também porque o lazer já não tem o mesmo significado de oposição ao trabalho.Tento agora conciliar vertentes aparentemente inconciliáveis – descanso, resolução de problemas práticos adiados, outros trabalhos e experiências novas que permitam aprendizagens.

Nesta última vertente tenho beneficiado de uma rede de amigos com quem é possível estar/trocar/colaborar. Gente do Movimento de Transição, da tribo da Permacultura, gente que procura modos de vida ambiental e humanamente mais amigáveis. Nas cidades e fora delas surgem pessoas e famílias que se atrevem a construir vidas que não se centram no emprego e tentam emancipar-se do consumo e dos empréstimos bancários. Está em curso um movimento esperançoso de modos de vida alternativos ao mainstream.  

Gente com capital cultural e educativo, de todas as idades e condição, de filosofias diferentes, com posições críticas face ao capitalismo de casino e comprometidos com a urgência de nos tornarmos mais sustentáveis. Conseguem viver com muito menos dinheiro, alguns deixaram os trabalhos ou estão reformados, voltaram à terra e a economias de subsistência, outros mantem actividades artísticas ou de outro tipo com vínculos liberais. Vivem todos com orçamentos muito mais reduzidos e estão ligados em redes, integrando-se com as comunidades locais de acolhimento.

Na minha itinerância fui a Santo André e Lisboa, sempre, com particular destaque para a renovada Mouraria. O período maior fui para a Beira, uma zona lindíssima entre Côja e Avô, entre as Serras do Açor e Estrela. Uma natureza ainda pujante, um património cultural e arquitectónico muito rico e muita gente, nacional e estrangeira a tentar reinventar modos de vida.

Em Agosto participei em dois Festivais que estão também ligados a este Movimento – o Andanças, na Barragem de Póvoas e Meadas em Castelo de Vide e o Bons Sons, na Aldeia Cem Soldos, em Tomar. Existe em Portugal uma razoável oferta, tendo em conta o tamanho do país, de festivais de Verão - arrisco dizer que existem Festivais para todos gostos, bolsos e feitios. Os adolescentes e os jovens adultos são os seus maiores fãs. Mas não são só eles. Também existem frequentadores menos jovens, de todas as idades. Imagino que também as motivações que estão por detrás das escolhas sejam diversas.

Sem enjeitar o valor económico destas iniciativas e uma espécie de efeito Disneylândia com recintos que funcionam como reservas temáticas, mais ou menos tribais, o certo é que vivi em ambientes amigáveis, descontraídos, participativos e com ofertas culturais de grande qualidade. Para mim funcionaram ao jeito de residências artísticas ou melhor dito, foram uma espécie de imersão antropológica em territórios não habituais. Ir a estes Festivais foi garantia de não encontrar pessoas do meu ciclo profissional e até pessoal – até por isso foi refrescante e permitiu conhecer outras formas de entender a vida. Descobrir. Compreender. Aprender.

Admito que, para uma fatia de participantes, o efeito Disney regado a cerveja talvez seja o móbil. Para os mais jovens, imagino que os festivais sejam uma espécie de ritual de iniciação ou de passagem em que experimentam sobreviver fora do controlo parental e do apoio familiar. Ou ensaiam tempos de vida de casal e/ou de grupo. Claramente, uns conseguem melhor que outros. Estes Festivais criam reservas de bom trato, de amizade, de alargamento de horizontes culturais, de possibilidades protegidas de experimentação. São organizados colaborativamente por associações que defendem e praticam valores que me são caros - claramente são contextos de educação não formal.



Foi a vigésima edição, a terceira no Alentejo, perto de Castelo de Vide; sendo que a maioria dos Festivais anteriores foram em S. Pedro do Sul.

A Associação que promove este Festival é a PédeXumbo, de Évora. Sobre o conceito que está na génese deste Festival, pode ler-se no site:
O Andanças é um festival que promove a música e a dança popular enquanto meios privilegiados de aprendizagem e intercâmbio entre gerações, saberes e culturas. Com um olhar dos dias de hoje, o Andanças propõe-se reavivar hábitos sociais de viver a música retomando a prática do baile popular através de múltiplas abordagens às danças de raiz tradicional, portuguesas e do mundo, com vista à recuperação das tradições musicais e coreográficas, fundindo-as com elementos contemporâneos.´


 A Associação PédeXumbo promove desde 1998 a música e a dança tradicional.
Uma equipa profissional dedica-se à recuperação e divulgação destas práticas culturais, através de registos, coproduções, criações artísticas, investigação e através do ensino formal e informal destinado a todas as idades. A PédeXumbo também organiza festivais em todo o país e programa regularmente no seu próprio espaço, em Évora, oficinas, concertos e bailes para vários públicos.

O cartaz dos sete dias (3 a 9 de Agosto) tem uma programação ininterrupta e com propostas múltiplas desde as 10h até às 3 ou 4 da manhã. Espalhado por um recinto natural fantástico, tem um forte compromisso de sustentabilidade ecológica.
Uma das intenções é promover a visão sistémica e de ciclo-de-vida dos processos de produção e consumo, de produtos e serviços, com objetivos idealizados de "zero desperdício", procurando fechar ciclos – à escala local, regional, e nacional –, e contribuir para um consumo e modos de vida mais sustentáveis. (…) a demonstração e partilha de melhores práticas ambientais, sociais e económicas contribui para o desenvolvimento de uma consciência e de uma cultura mais sustentáveis. Até porque muitas vezes nos esquecemos de pensar nas consequências das nossas ações e de procurar ativamente alternativas. No Andanças, a forte adesão dos participantes às práticas adotadas confirma esta aposta.

De facto, viver o Andanças é isto. O encontro e a partilha. Dançar, ouvir música, atrever-se a tocar um instrumento, a pintar, a construir qualquer coisa, a participar num coro mandado. Fruir, da paisagem, do ambiente, dos debates, da música que se toca por todo o lado, de estar em comunidade e em paridade. De celebrar a vida.
De resto, é mais fácil viver o espírito deste Festival do que contar como foi.


Esta sexta edição do festival que se assume ser da música portuguesa decorreu no terceiro fim-de-semana de Agosto, na Aldeia de Cem Soldos, perto de Tomar. É organizado pela associação cultural local SCOCS e pretende ser uma plataforma de divulgação da música portuguesa, quer a consagrada, quer os projectos emergentes.
Mais do que um festival de música portuguesa, o BONS SONS é uma experiência única. A Aldeia de Cem Soldos é fechada e o seu perímetro delimita o recinto que acolhe 8 palcos, cada um dedicado a uma linha programática, perfeitamente integrados nas suas ruas, praças, largos, igreja e outros equipamentos.
Além desta característica, o BONS SONS promove uma relação de proximidade com o seu público, envolvendo a população na realização do Festival. São os habitantes que acolhem e servem os visitantes, numa partilha especial entre quem recebe e quem visita, proporcionando a vivência ímpar de um evento musical. A selecção criteriosa do programa, o recinto único que é Cem Soldos e o envolvimento da população na realização do Festival são marcas que distinguem o BONS SONS da oferta cultural nacional. A par da formação de públicos, o BONS SONS tem como principal meta o desenvolvimento local através da fixação dos mais jovens e da potenciação da economia local.
Quando chegamos e colocamos a pulseira somos convidados a fazer parte da aldeia, a partilhar os seus lugares e a conhecer os seus habitantes e tradições. Durante 4 dias vivem-se os palcos de música, as exposições, as conversas e as variadas actividades que animam ruas e largos.
Hoje, com cerca de 1.000 habitantes, Cem Soldos tem um verdadeiro espírito comunitário e mantém as suas tradições vivas e actuais, registando grande envolvimento nas actividades locais, como é o caso da animada Festa da Juventude em Agosto, a peculiar Festa da Aleluia na Páscoa e a poderosa fogueira de Natal. Em 1192, no reinado de D. Sancho I, já existia registo do lugar de Cem Soldos. Conta-se, numa versão da história, que o nome de Cem Soldos deriva de ter havido nesta povoação um destacamento militar de cerca de cem homens, aos quais, periodicamente, eram enviados “100 soldos” para o pagamento dos seus serviços.

O Sport Club Operário de Cem Soldos (SCOCS) é a associação cultural local que, desde 1981, tem por missão promover o bem-estar social, cultural, desportivo e recreativo da população, privilegiando o desenvolvimento mútuo da Associação e da Comunidade nestas vertentes. O SCOCS tem assegurado a criação de uma dinâmica social excepcional, sendo responsável pelo envolvimento comunitário, formação e empreendedorismo de muitos jovens de Cem Soldos, cujo resultado mais mediático é o festival que se tornou nacional: o BONS SONS.
O ambiente é miscenizado entre os habitantes autóctones mais antigos e mais recentes (já é muito difícil encontrar verdadeiros rurais nas nossas aldeias), as tribos artísticas, muitos jovens adultos maioritariamente com pronuncias do centro e do norte, os estrangeiros jovens e menos jovens que vêm pela música, pelos artistas de renome e/ou pelo projecto da Aldeia. O objectivo final deste festival é o de retribuir à aldeia o esforço e o envolvimento, com aplicação das verbas em iniciativas sociais e culturais que beneficiam a sua comunidade.
A par do papel de formação de públicos, o BONS SONS tem como principal meta o desenvolvimento local, através da fixação dos mais jovens e da potenciação da economia local. Assim, faz parte de um plano maior que tem como base a valorização e a capacitação da população local, a criação de postos de trabalho e a promoção do espírito comunitário.

Isabel Passarinho

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Legislativas 2015 - A falácia da falta de escolha

Bom dia!

Hoje senti a necessidade de partilhar alguns pensamentos sobre uma das muitas questões polémicas que envolvem o presente (e passados) período eleitoral: a falácia da falta de escolha.

A falácia da falta de escolha é uma história, uma fábula, ou um conjunto de argumentos, dependendo do ponto de vista que, em altura de campanha se espalha como a varíola, com o intuito de beneficiar aqueles que há 41 anos monopolizam a governação de Portugal (PS/PSD), utilizando para isto o mais triste dos argumentos políticos: “O partido X é uma desgraça no que faz, mas os outros não são melhores”.

Ao contrário da varíola, que existe mesmo e parece que é chata, a falácia da falta de escolha é, independentemente da eloquência, tom e volume do orador, não mais do que uma falácia, uma mentira. Hoje vamos desmontar esse apelo à “estabilidade” e à “continuidade” que PS e PSD tanto se esforçam para passar como a única maneira de lhes salvar o empreg…, oh, perdão, o país.

Portugal é uma democracia há 41 anos (possivelmente o único aspecto em que realmente vale a pena apostar na continuidade), tendo atingido o feito a 25 de Abril de 1974, e, desde então, depois de 2 anos de junta de salvação nacional e governos provisórios, eis que se estabelecem em 1976 (até hoje) os governos constitucionais que, à excepção de ano e meio (29 de Agosto de 1978 – 3 de Janeiro de 1980) em que fomos governados por independentes propostos pelo, então presidente, Ramalho Eanes, foram conduzidos ora pelos socialistas do PSD, ora pelos sociais-democratas do PS e, aqui e ali, por um CDS a reboque, sempre que um dos dois partidos não foi capaz de conseguir sozinho uma “maioria estável/absoluta/grande e boa”.

Nestes 39 anos e meio de continuidade mais ou menos estável (parece que volta e meia os próprios pregadores da “estabilidade” e da “continuidade” decidem destabilizar-se uns aos outros, os marotos) Portugal tem seguido, no que diz respeito às contas públicas, um trajecto exemplar, estável e contínuo. Direção? Para baixo.

Segundo os dados divulgados no site da Pordata, o último ano (e único em 50 anos desde 1964 a 2014) em que o estado Português gastou menos do que ganhou foi 1970 e, à excepção desse vergonhoso exemplo, temo-nos mantido num caminho estável e contínuo para a bancarrota.

Fig.1: Equus africanus asinus, um burro, só porque sim.

Em 1975 o estado já gastava o equivalente a mais de 100 milhões de euros do que o que conseguia recolher em receitas, em 1976, a diferença já passava os 200 milhões, em 1984 ultrapassava-se a barreira dos 1000 milhões de euros (quanto é que isto é em escudos?) que o estado gastava, a mais, do que o que tinha para gastar, e em 2002 a balança comercial anual do estado Português acusava um rombo de mais de 5000 milhões de euros. Em 2004, quais campeões (quase fomos, raio dos gregos, sempre à frente) o estado Português quase ultrapassava os 10000 milhões de euros de défice anual, barreira que finalmente venceu em 2009, ano em que atinge a prestigiante marca dos 14057 milhões de euros, marca que, ainda assim é batida em mais de 200 milhões de euros no ano seguinte. Desde então, e porque felizmente houve um governo eleito com o propósito máximo de equilibrar as contas públicas, o estado Português têm vindo a perder, anualmente, só mais de 7000 milhões de euros e o défice encontra-se agora nos 130% do PIB. Estamos safos.

Mas há que reconhecer que nem tudo foi péssimo em 39 anos de continuidade PS/PSD/CDS. Desde 1974 foi construída uma boa rede de ensino, vulgo escola pública, que nos últimos 10 anos vem sendo desmantelada, um bastante razoável serviço nacional de saúde, cada vez mais inacessível aos cidadãos com menos recursos, quilómetros e quilómetros de alcatrão, que permitem ao tio Belmiro e afins, aos deputados e ministros, e aos investidores Chineses e Angolanos uma pista em fantásticas condições e com pouquíssimo trânsito, para esticarem os motores dos seus carros modestos (que também emitem poucos gases poluentes e podem entrar na baixa de Lisboa), tornámo-nos um país turístico, cuja principal mais valia é o baixo preço, produzimos grandes mentes nas artes, no desporto e na ciência, que são das nossas maiores e mais produtivas exportações, e claro, continuamos a ter de maneira muito estável e contínua um óptimo clima e comida fantástica.

Por outro lado, quanto a alternativas políticas, concorrem às eleições legislativas de 2015 (pois, as deste domingo) apenas 20 partidos, pouca diversidade por onde escolher.

Apesar de nem todos os partidos concorrerem em todos os círculos eleitorais, verdade seja dita, nunca houve, como agora, tanta alternativa, para todos os gostos, opiniões e feitios como nas presentes eleições. Desde defensores de marrecos e coxos a quem acha que o Cristiano Ronaldo é o máior há projectos e propostas para defender tudo e mais alguma coisa, inclusive, a espantosa “continuidade” e a também muito popular “estabilidade”.

Em todo o caso, para que se conheça e para que se possa votar com a consciência de que sabe a quem e para quem se está a dar não só dinheiro como o governo do país, deixo-vos uma lista dos partidos que concorrem nestas eleições, os links para os respectivos programas e os nomes dos cabecilhas:
AGIR – Coligação PTP-MAS
Líder – Joana Amaral Dias
Programa eleitoral: aqui

Bloco de Esquerda
Líder – Catarina Martins
Programa eleitoral: aqui

CDU – Coligação PCP-PEV
Líder – Jerónimo de Sousa
Programa eleitoral: aqui

Juntos Pelo Povo
Líder – Nuno Moreira
Programa eleitoral: aqui

Livre/Tempo de Avançar
Líder – Rui Tavares
Programa eleitoral: aqui

Nós Cidadãos
Líder – Mendo Castro Henriques
Programa eleitoral: aqui

Partido Cidadania e Democracia Cristã
Líder – Tânia Avillez
Programa eleitoral: aqui

Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses
Líder – Garcia Pereira
Programa eleitoral: aqui

Partido da Terra
Líder – José Manuel Silva Ramos
Programa eleitoral: aqui

Partido Democrático Republicano
Líder – Marinho e Pinto
Programa eleitoral: aqui

Partido Nacional Renovador
Líder – José Pinto-Coelho
Programa eleitoral: aqui

Partido Popular Monárquico
Líder – Gonçalo da Câmara Pereira
Programa eleitoral: aqui

Partido Socialista
Líder – António Costa
Programa eleitoral: aqui

Partido Unido dos Reformados e Pensionistas
Líder – António Mateus Dias
Programa eleitoral: aqui

Líder – André Lourenço e Silva
Programa eleitoral: aqui

Portugal à Frente – Coligação PSD-CSD
Líder – Pedro Passos Coelho
Programa eleitoral: aqui

Divirtam-se e no Domingo não deixem de ir votar por falta de alternativa.

Nuno Soares